Problemas de saúde mental, dores de coluna, falta de sono e até violência física foram algumas das questões apontadas na audiência pública que debateu a precarização do trabalho das costureiras do polo de confecções do Agreste. O encontro, promovido pela Comissão de Cidadania, foi realizado na Câmara Municipal de Caruaru, no Agreste Central, nesta terça. O trabalho em facções foi apontado como prejudicial às mulheres. Nesse modelo, não se produz uma peça inteira, mas é realizado, em grande escala, um único serviço como pregar mangas, zíperes ou fazer bainhas. O valor unitário pode chegar a cinco centavos. Outra dificuldade desse sistema é a informalidade. As mulheres trabalham de casa e precisam, além de bater as metas da costura, cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos. No ramo há 15 anos, Maria Valdinete é faccionista. Ela contou que a carga de trabalho chega a 14 horas diárias e que, devido às longas jornadas, teve a coluna comprometida. Representando o coletivo Mulheres Criando Moda, Valdinete lamentou a condição das costureiras informais. “Quando a gente fala no polo de confecções do Agreste, as pessoas veem a quantidade de emprego que é gerada, os bilhões que são injetados na economia do nosso estado, mas ninguém vê a situação daquela mulher que está ali, que na maioria é pai e é mãe, e é responsável por todo o sustento da casa e muitas vezes ainda apanha. Porque eu tenho conhecimento de colegas minhas que levou tapa na cara porque chegou o dia de entregar a mercadoria, faltavam 50 peças para fazer bainha, e o infame – é um infame um cara desse – bateu no rosto dessa mulher.”
Presidente da Comissão de Cidadania, a deputada Dani Portela, do PSOL, reforçou que as mulheres são as principais responsáveis pela produção do polo de confecções do Agreste, o segundo maior do Brasil. Para a parlamentar, é fundamental conhecer as condições de trabalho de quem produz essa riqueza para o estado. Segundo a representante do Dieese, Milena Prado, o índice de pessoas no mercado de trabalho, nos municípios do polo, é maior que em várias regiões do Brasil, mas a maioria vive na informalidade. Políticas de fomento à produção de mulheres, qualificação profissional, subsídio para pagamento de energia elétrica, cuidados com a saúde, construção de creches e a definição de preço mínimo por facção foram algumas das medidas apontadas para a melhoria da situação das costureiras, durante a audiência pública.
A secretária executiva da Mulher de Pernambuco, Juliana Gouveia, indicou iniciativas do governo estadual voltadas para as trabalhadoras, como a abertura de creches e o investimento em cursos de qualificação profissional. Ela destacou também o programa Bora Empreender, Mulher, com 18 milhões de reais em linhas de crédito para alavancar negócios encabeçados por mulheres. “Elas podem acessar o site da Age, a Agência Pernambuco de Microcrédito, ou o site da Sedepe, lá tem as informações. Também estão sendo organizadas caravanas que vão passar por todas as regiões de Pernambuco informando a essas mulheres como ter acesso.”
A deputada Rosa Amorim, do PT, que solicitou o encontro, anunciou uma indicação ao Poder Executivo sugerindo a inclusão das costureiras do polo de confecções no programa Chapéu de Palha. A medida destina benefícios para trabalhadores da cana, da fruticultura irrigada e da pesca artesanal, em períodos de entressafra. “Tem momentos em que as costureiras vivem um momento de baixa produtividade, e elas precisam ter a garantia mínima para sua sobrevivência.”
Rosa Amorim informou, ainda, que vai pedir uma audiência com a governadora, junto com representações das costureiras, para apresentar a indicação. Além da deputada, a iniciativa tem autoria de Dani Portela e de João Paulo, do PT.
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